10 de março de 2015

O Deus que assombra ou sobre o ódio e as crianças.

Ontem tive um dia cheio, corrido, mas bom.
Ao final do dia após banhos e jantar ficamos na sala conversando, brincando com João Miguel.
João Miguel dormiu, o pai o colocou na cama, então peguei o celular para dar uma olhada nas notícias. Foi então que desabei, aquela sensação de paz, de conforto se esvaiu em segundos.
O menino Peterson havia falecido.
O menino de 14 anos, espancado na porta da escola por 'carregar a culpa' de ter uma família "diferente". Peterson tinha dois pais. Peterson era filho de homossexuais.
Eu não consigo mensurar o que senti, o que estou sentindo porque é um misto de sentimentos.
Tristeza, impotência, raiva, medo.
Eu tenho medo do que algumas pessoas estão ensinando aos seus filhos, medo dos valores tão invertidos, tão absurdos sendo passados por gerações. Tenho medo do que é dito dentro das casas. E muito medo do que não é dito, mas demonstrado.
Eu acredito e defendo que se ensina por exemplos, nas atitudes, nos detalhes, no dia a dia.
Tenho visto disseminação da intolerância, da arrogância, da estupidez, do estrelismo, do ódio. Preconceito.
Eu realmente não consigo compreender porque a vida alheia incomoda tanto, porque as pessoas se acham cheias de direitos em relação ao outro, porque os homossexuais, os negros, os indígenas, os acima do peso incomodam tanto. Que ameaça é essa que eles oferecem?
Tenho medo das crianças que crescerão com meu filho, com seu filho, com os filhos de pessoas que batalham pela igualdade, pelo respeito, pela educação.
Tenho muito, muito medo do mundo em que meu filho viverá. Porque por enquanto eu o protejo.
É uma sensação horrorosa de pavor porque meu filho pode ser hostilizado, agredido e até assassinado por torcer pelo time A ou B; por votar no partido Tal; por ser homossexual ou ter amigos homossexuais; por ser pagodeiro, rockeiro ou sertanejo; por ser budista, espírita ou não ter religião; por ter sido criado no interior; por ter uma profissão que não tenha o glamour de uma Medicina, Engenharia ou Direito. Medo do meu filho ser agredido por defender os valores e ideais que estamos lhe ensinando.
Ultimamente o que mais me estarrece é ver Malafaias e Felicianos (e seus milhares de fãs) pregando o ódio em nome de Deus. E como falam no 'inimigo'! Tudo do qual eles discordam é "obra do inimigo", pessoas que pensam diferente são "usadas pelo inimigo", discordar deles é "coisa do inimigo". Sempre desconfio de quem fala mais no diabo, de quem vê mais o mal que o bem.
O mal existe e atua, mas não pode e nem tem mais força que Deus. Deus sempre será maior. Prefiro buscar e enxergar Deus nas coisas, viver com leveza. 
Dois sujeitos que se dizem cristãos, que possuem papel religioso ativo, repleto de seguidores. Não ignorando que há tipos assim em várias outras religiões, apenas possuem uma fama menor.
Cada vez que vejo alguém - assim como eles - vociferar contra o que discordam, contra o "diferente", pregar o ódio, me dou conta de que até Deus foi deturpado. 
Eu não faço ideia de que Deus, de que Cristo sejam esses que essas pessoas pregam, de quem falam.
O Deus em que eu creio, do qual falo para o meu filho, o Deus que habita em mim é o Deus do amor, do perdão, do acolhimento, da sabedoria. É o Cristo que pediu apenas que amássemos uns aos outros. 
Ele não pediu para concordarmos com tudo, para nos aniquilar pelo outro. Ele só pediu para amarmos o próximo. Amar é respeitar. Só.
Se o homossexualismo é citado na bíblia como algo abominável, não é problema meu, nem seu. É da conta de Deus.
O Deus que eu creio pode discordar do homossexualismo, como diz a bíblia, mas jamais daria as costas para um filho seu.
Esse Deus que julga, condena e mata sem piedade eu desconheço. 
Não canso de questionar quem essa pessoas pensam que são para apontarem o dedo para o outro, para julgarem e sentenciarem. Quem pensam que são para falar em "nome de Deus". Eles não sabem nada sobre Deus, sobre Cristandade. O Deus deles assusta.
De onde tiraram a ideia de que são superiores, de que possuem direitos sobre tudo e todos, de que são merecedores, de que serão "salvos".
Salvos do quê? Não conseguem se livrar da própria loucura, da própria escuridão. Se salvarão do quê?
Cada vez entendo menos. Cada vez mais reforço a velha sabedoria de que religião é coisa do homem, logo é preciso sabedoria, discernimento e muito cuidado para não nos cegarmos, invertemos valores e acabarmos colocando o homem acima de Deus. 
Eu não preciso de religião para saber o básico, o fundamental, se um dia decidir ter uma será para acrescentar, não para tirar a paz. Não sigo e nunca seguirei homem, sigo somente Deus e Seu filho.
Cada vez tenho mais medo do mundo que as pessoas estão construindo para os seus filhos. Para os nossos filhos.
São tantos Petersons...
                                                                                           
                                                                                 Carine Gimenez

Um comentário:

  1. Que triste, Carine... sabe, eu até entendo as pessoas não aceitarem o que acham ser diferente, entendo que não queiram se envolver e etc, mas com isso acharem que são melhores, que tem direito de humilhar, machucar e até matar outro ser humano?
    A cada segundo que vários aceitam as diferenças, que vários respeitam e lutam pelo respeito ao próximo, surgem com uma força que não sei de onde vem, aqueles que se acham os corretos e corretores. Aqueles que se acham no direito de "corrigir" uma diferença. Tenho pena dessas pessoas... Aceitar o outro como ele é, isso sim é coisa de Deus!
    Não curto esse Deus que esse povo prega... não curto... muito triste com a morte do menino tbm... :(

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